Educação Física - como planejar as aulas na Educação Básica De Marta SCARPATO (Organizadora) Fernanda
de Aragão e Ramirez A Educação Física mudou. Não quer dizer que esteja mais forte, mas mudou. Identifico forças antigas, fortemente ideológicas, instaladas, agora, nos fragmentos denominados bacharelado e licenciatura, tanto quanto identifico as novas forças. Para alguns, o bacharelado abriga a velha Educação Física; a licenciatura, a nova. Falso! O velho e o novo estão em ambos. E as novas gerações envelhecem ou rejuvenescem também nos dois. Não me importa falar sobre os velhos velhos e os novos velhos; é dos novos novos que pretendo falar, porque os vejo florescendo, às vezes como meus alunos, às vezes como audaciosos autores, como os deste livro que tenho a honra de prefaciar. Não que não existam os velhos novos, mas estes constituem uma outra história de que não tratarei aqui. Se a Educação Física é, à feição de seu nascimento, ainda uma pedagogia, não pode ser ameaçada e até morta pelas ciências de que se alimenta. Tais ciências, instaladas em parte nos bacharelados e em parte nas licenciaturas, esmagam, oprimem, diminuem o espaço pedagógico. Matam sua razão de existir quando deveriam enriquecê-la. Tímida, a pedagogia encolhe-se. As avaliações da CAPES, a corrida desenfreada pela produção nos cursos de Pós-Graduação, os trabalhos de conclusão de curso, negligenciam o núcleo duro da Educação Física, que é a pedagogia. Trata-se de ensinar e aprender, de educar, isto é o que aponta seu nome de batismo. Comprometida pelo próprio nome, a Educação Física não se afirmou como ciência, quando já seria ciência sendo pedagogia. Alimentou-se, sempre, das ofertas científicas de outras áreas, como a fisiologia, a psicologia, a biomecânica e a sociologia. Com isso, tentou ser forte, mas desmoronou, foi tolhida, coberta por essas áreas, e fragilizou-se. Não fez da pedagogia uma ciência, porque oprimida, e não escapou do engessamento de seu próprio nome. A história, porém, mostrou que, dentro da Educação Física, pressões aconteceram para que um corpo científico próprio se constituísse, além da pedagogia. Surgiram propostas: a Motricidade Humana, a Cinesiologia, a Cultura Corporal de Movimento, todas alentadoras. Isto é, há algo mais que o nome não poderia mais conter. A Educação Física é pedagogia, porém é mais que pedagogia. Esse corpo próprio de conhecimentos, aliado às contribuições científicas de outras áreas, sim, poderia constituir um núcleo sólido que alimentaria a formação de graduados, quem sabe, nesse caso, de bacharéis. O bacharel não é aquele que aplica, que clinica, que ensina; é o que entende. Nossa área, porém, tem uma especificidade: aquele que entende, quando aplica seus conhecimentos, quase sempre é ensinando. O escoamento do conhecimento da área é a pedagogia, na maioria dos casos, mas não exclusivamente. Portanto, um bacharelado faz sentido sim, quando é para formar o graduado que aprende o que há de mais típico na área. A partir daí a pedagogia justifica o termo Educação Física; é quando o especialista, quem sabe um bacharel, aplica socialmente seus conhecimentos. Surge então o professor de Educação Física, razão da existência de uma área que nasceu pedagogia e cresceu por dentro. Área que, se não encontrar corpo próprio de conhecimentos, talvez pereça. Há uma nova geração produzindo. Este livro é um belo exemplo. Uma geração que mostra ser possível uma produção técnica e científica que não se confunde com produções de outras áreas. Além disso, ela mostra caminhos de intervenção social, para que os conhecimentos produzidos na área específica, junto com os que vêm de outras ciências, possam ter bom destino. Retoma, assim, o bom caminho da Educação Física e lhe confere prestígio. Nesta obra, faz sentido o termo Cultura Corporal de Movimento. Não vejo com bons olhos a delimitação restritiva dos conteúdos em jogo, esporte, dança, luta e ginástica, mas me animo com a idéia de uma Cultura Corporal de Movimento em que conteúdos típicos possam ser abrigados pela Educação Física. A dança, o esporte, as brincadeiras, entre outros conteúdos, ganham um novo foco: o processo educacional está no centro das atenções. Não se trata mais do esporte pelo esporte, mas da educação pelo esporte. Uma nova geração de pesquisadores fortalece a idéia de constituir um corpo próprio de conhecimentos para a Educação Física, quer seja aquele apontado pelo Coletivo de Autores, quer seja o apontado por mim e Scaglia, entre outros. Ora, se, como afirmam os autores desta obra, e eu os menciono, Marta Scarpato, Fernanda Ramirez, Luiz Sanches Neto, Márcia Zendron de Campos, Luciana Lomakine, Wiliam Soares de Freitas, Sandra Zotovici, Maria Georgina Marques Tonello e Priscila Alves, há algo típico na Educação Física, que uma certa pedagogia pode ensinar, então se justifica falar, como falei no início deste prefácio, dos novos novos. As crianças e os adolescentes precisam aprender, não importa se pela dança, se pelo esporte ou pelas brincadeiras, a viver corporalmente, que é para isso que as ensinamos. Nós, professores, ensinamos a viver. E é como corpo que vivemos, que manifestamos a vida de que somos possuídos. A instituição escolar respeita as disciplinas que declaram o que ensinam; atura as que não declaram mas foram impostas por lei. Declarar o que ensina não quer dizer ensinar bem; em onze anos de ensino básico, o que aprendemos de matemática ou português não enche um caderno. Não declarar e não ensinar, pior ainda. Pode-se ter uma idéia da fragilidade da Educação Física escolar quando não há respostas convincentes sobre o que ensina essa disciplina, afinal. Décadas se passaram sem que acordássemos para a gravidade do problema. Diante do risco de extinção, há um certo pânico. Vejo que os novos novos da nova geração saíram a campo para declarar que há algo sim para ensinar. Não necessariamente ensinar da mesma maneira como sempre ensinamos. É preocupação da nova e boa geração de profissionais de Educação Física a justificativa de sua existência. Afinal, pode-se discutir a qualidade e a pertinência dos conteúdos de outras disciplinas como Matemática, Português ou História, mas elas definem, série a série, seus conteúdos, e isso contribui para a credibilidade que possuem no sistema educacional. E quanto a nós, sequer sabemos dizer o que é Educação Física. Há tempos eu digo, corpo é o que somos, não há outra possibilidade de manifestação de vida que não seja corporal, não importa se árvore, bicho ou gente. Viver é o que ensinamos nas escolas. Supõe-se que, aprendendo bem a língua portuguesa, podemos viver melhor. No caso da Educação Física, trata-se de ensinar o conhecimento, dentre todos, o mais básico: ensinar a viver corporalmente, ensinar a ser corpo. Somos uma disciplina que ensina a viver corporalmente. Isso não é pouco; isso confere uma identidade a nossa área. No entanto, significa ter de superar séculos de preconceitos. Geração após geração, em cada povo, ensinaram-nos que esta vida é apenas uma passagem para algo melhor, que não somos este corpo, que habitamos uma carcaça material que perecerá com nossa morte. É alentador ler um livro como este. É um prêmio poder prefaciá-lo, tornar-se companheiro dessa nova geração; um orgulho compartilhar um espaço despido de sectarismos; um conforto conviver com idéias diferentes. Sumário 1 FINALIDADES EDUCACIONAIS NA EDUCAÇÃO FÍSICA E A PRÁTICA REFLEXIVA: concepções e possibilidades na Educação Básica – Márcia Zendron de Campos1.1 A LDBEN e a Educação Básica: finalidades educacionais em foco1.2 A Educação Física como prática corporal pedagógica 1.3 Da formação inicial à atuação docente
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